Repare.

Preservação da Memória Nordestina
Ministro Juca Ferreira recebe governador da Paraíba para selar parceria em projetos culturais

Valorizar a  história  e a cultura da Paraíba por meio de ações voltadas à memória foi o foco do apoio que o governador do estado, José Maranhão, pleiteou junto ao Ministério da Cultura. Um encontro com o ministro Juca Ferreira, na manhã desta quinta-feira, 18 de março, em Brasília, selou parcerias para implantação e implementação de diversos projetos artístico-culturais, dentre eles o Memorial Sivuca.

“Tenho o maior carinho por esse projeto. Sou entusiasta do artista”, declarou o ministro, que deseja inaugurar o espaço cultural ainda este ano. Para isso, solicitou uma reunião com os envolvidos no empreendimento para a próxima semana a fim de acelerar a entrega do espaço.

Propostas financiadas pelo Programa Mais Cultura também destacam-se entre os projetos apresentados. São 40 Cines Mais Cultura, 10 Pontos de Leitura e a modernização de 25 bibliotecas públicas. As iniciativas tramitam no MinC e aguardam aprovação. “Eu tenho o maior interesse em ajudar o estado”, afirmou o ministro.

O governador José Maranhão solicitou apoio para mais quatro novas iniciativas – cinco edições Livro de Bolso; Salão Internacional do Livro; Memorial Leandro Gomes de Barros, considerado fundador da literatura de Cordel; Museu da Revolução de 30 (Princesa Isabel) e o Programa de Banda de Música. Este último, na opinião do ministro, de grande relevância para o país: “Temos que quadruplicar os recursos para o Programa de Banda de Música. A grande escola de música do Brasil são as filarmônicas”.

Um memorial em homenagem ao escritor José Lins do Rego é outro projeto de preservação da cultura da Paraíba. A ideia é transformar a fazenda que deu origem ao livro do autor, Menino de Engenho, em um museu. O ministro Juca Ferreira colocou a comitiva paraibana em contato com o presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan/MinC), Luiz Fernando de Almeida, para articular o processo de implantação do espaço cultural.

Para José Maranhão é preciso “acabar com concentração de recursos” e valorizar, também, as tradições do Nordeste brasileiro. O ministro afirmou que a modificação da Lei Rouanet, em tramitação na Câmara dos Deputados, tem exatamente o objetivo de ‘descentralizar o dinheiro” e beneficiar projetos culturais nos seus diversos segmentos de forma igualitária em todas as regiões do país.

Fonte: http://www.cultura.gov.br/site/2010/03/18/preservacao-da-memoria-nordestina/

Pense numa mulher.

Já pensei no dia Internacional da Mulher como um dia preconceituoso “Por que bixiga lixa tem que ter um dia para nós?”, pois é, tem que ter. Afinal, ainda há preconceito, subjugação e violência. Há salários menores e um acúmulo de tarefas que parece ser o preço de nossa independência. Assim, esse Dia Internacional da Mulher não deve ser para a comemoração de nossa existência, porque isso é óbvio, cá estou eu que não deixo mentir, mas sim para a abertura de discussões, para a reflexão ou para ficar com a moléstia dos cachorros, como a nossa companheira abaixo. 

MARIA BONITA,
por Semira Adler Vainsencher
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco
pesquisaescolar@fundaj.gov.br

 Maria Gomes de Oliveira nasceu no dia 8 de março de 1911, na fazenda Malhada do Caiçara, próximo à localidade Santa Brígida, no Estado da Bahia. Os familiares chamavam-na de Maria Déia. Seus pais, moradores de Jeremoabo, eram os fazendeiros Maria Joaquina da Conceição e José Gomes de Oliveira.

 Aos 15 anos, Maria Déia se casava com o sapateiro José Miguel da Silva, apelidado Zé do Neném. O casal permaneceria junto durante cinco anos, mas, como José era estéril, eles não tiveram filhos. As brigas entre os dois eram muito freqüentes e, a cada desavença, Maria costumava se mudar para a fazenda Malhada do Caiçara, que ficava próxima à Cachoeira de Paulo Afonso, de propriedade dos seus pais.

Por aquela fazenda passou Virgulino Ferreira da Silva, o famoso e temido Lampião. Uns dizem que, sem nunca tê-lo visto, Maria Déia já nutria um grande amor platônico pelo cangaceiro. Outros afirmam que a mãe dela segredara, ao próprio Lampião, a existência daquela paixão. E, há quem jure, que foi Luís Pedro – um dos integrantes do bando – quem insistiu para o rei do cangaço conhecê-la.

Independentemente de como tenha sido, realmente, aquela troca de energias, fato é que a atração entre eles foi imediata e recíproca: o cangaceiro caiu de amores por Maria Déia e vice-versa. Impressionado por sua beleza, passou a chamá-la de Maria Bonita. E, ao invés de ficar três dias na fazenda, como era de praxe, permaneceu dez, vivenciando com a esposa de Zé do Neném um tórrido romance.

Ao cabo dos dez dias, sem medir riscos e dificuldades, Maria Bonita colocou suas roupas em dois bornais, despediu-se do marido para sempre, abraçou os familiares, e partiu com Lampião rumo à caatinga. Foi a primeira mulher a se inserir oficialmente no bando, abrindo um precedente até então inabalável. Os demais cangaceiros respeitavam-na muito, referindo-se a ela como Dona Maria, Maria de Lampião ou Maria do Capitão. Era o ano 1931 e Maria Bonita tinha 20 anos.

A partir daí, outras mulheres também entraram para o cangaço. Seria uma verdadeira revolução feminista, uma vez que se emanciparam e impuseram respeito. Muito embora não participassem dos combates, de forma direta, elas eram preciosas colaboradoras, tomando parte das brigadas e/ou empreitadas mais perigosas, cuidando dos feridos, cozinhando, lavando, e, principalmente, dando amor aos companheiros. Fosse representando um porto seguro, ou funcionando como um ponto de apoio importante, para se implorar algum tipo de clemência junto aos cangaceiros, as representantes do sexo feminino contribuíam para acalmar e humanizar os homens, limitando-lhes os excessos de desmandos. Muitas portavam armas de cano curto (do tipo Mauser) e, em caso de defesa pessoal, estavam sempre prontas para atirar. Excetuando-se Lampião e Maria Bonita, os casais mais famosos do cangaço foram: Corisco e Dadá; Galo e Inacinha; Moita Brava e Sebastiana; José Sereno e Cila; Labareda e Maria; José Baiano e Lídia; e Luís Pedro e Neném.

Cabe ressaltar que, apesar de receberem a proteção paternalista dos cangaceiros, a vida das mulheres era bastante difícil. Levar a termo as gestações no desconforto da caatinga, por exemplo, significava sofrimento; e, muitas vezes, logo após o parto, elas eram obrigadas a fazer longas caminhadas, fugindo das volantes. Caso não possuíssem uma resistência física incomum, não conseguiam sobreviver àquele cotidiano inóspito.

Após ter ido viver com Lampião, Maria Bonita engravidou, mas, com pouco tempo, perdeu espontaneamente o feto. E este não seria o único aborto que teve na vida. Em 1932, contudo, ela conseguiu levar a termo a gestação, dando à luz à sombra de um umbuzeiro, no meio da caatinga, em Porto de Folha, no Estado de Sergipe. Lampião foi seu parteiro. A criança? Uma menina que chamaram de Expedita.

A despeito de ser um bandido temido por muitos, Lampião era um homem extremamente jeitoso, dotado de grande capacidade de improvisação: confeccionava suas roupas, fazia os curativos, encanava pernas e braços quebrados, realizava os partos das companheiras dos cangaceiros, entre outros. Superdotado de inteligência, ele era, ao mesmo tempo, guerrilheiro, médico, farmacêutico, dentista, vaqueiro, poeta, estrategista e artesão. 

No tocante à Expedita, vale salientar dois pontos importantes: primeiro, o de que não era permitida a presença de crianças no bando. Logo que nasciam, os bebês eram entregues aos parentes não engajados no cangaço, ou deixados com familiares de padres, coronéis, juízes, militares, ou fazendeiros. Segundo: a vida dos cangaceiros era instável, com intensas perseguições, tiroteios e confrontos. Por esses motivos, Lampião e Maria Bonita não podiam criar Expedita. E os fatos, a partir daí, se tornaram, também, uma questão polêmica. Uns disseram que Expedita foi entregue a tio João, irmão de Lampião, que nunca fez parte do cangaço; e, outros, testemunharam que ela foi deixada com o vaqueiro Manuel Severo, na fazenda Jaçoba. Seja lá como tenha sido, Maria Bonita não pôde criar a própria filha: a sua vida já estava intimamente ligada à própria linha do cangaço.

Em uma luta contra a volante pernambucana, na vila de Serrinha, próximo ao município de Garanhuns (PE), a mulher de Lampião era baleada. Como estava perdendo muito sangue, o Capitão Virgulino deu ordem para que a luta fosse encerrada imediatamente, pegou a sua amada nos braços e seguiu rumo ao município de Buíque, onde ela tratou os ferimentos na vila de Guaribas.        

No dia 27 de julho de 1938, conforme o costume de anos a fio, o bando acampou na fazenda Angicos, situada no sertão de Sergipe, esconderijo tido por Lampião como o de maior segurança. Era noite, chovia muito e todos dormiam em suas barracas. Na madrugada do dia 28, porém, a volante chegou tão de mansinho que nem os cães pressentiram. Quando alguém deu o alarme, já era tarde demais.

Quando os policiais abriram fogo com metralhadoras portáteis, os cangaceiros não puderam empreender qualquer tentativa viável de defesa. O ataque durou uns vinte minutos, e poucos conseguiram escapar ao cerco e à morte. Lampião fora ferido gravemente e, logo em seguida, o mesmo ocorreu com Maria Bonita.

Ainda assim, ela rastejou até o companheiro (que ainda respirava) e pediu para ele ser poupado. Mas, suas preces foram inúteis. Arrastada pelos cabelos por um dos soldados – José Panta de Godoy – a cangaceira foi degolada viva. Sua cabeça ficou pendurada no pescoço. O próprio Godoy contou, no local da chacina, como procedeu para separar a cabeça de Maria Bonita:

Depois de cortar a cabeça, que até tive que bater no osso, saiu muito sangue, e eu enfiei o dedo dentro do tutano que tinha e barriei tudo, que era de um branco danado.

Feito isso, o corpo foi colocado em posições grotescas, para risos da volante. Das 34 pessoas presentes no bando, 11 foram mortas em Angico. Bastante eufóricos com a vitória, os soldados ainda saquearam e mutilaram os mortos, roubando-lhes todo o dinheiro, ouro, e jóias. Com Maria Bonita morreu, também, a mulher mais famosa da história do cangaço.

Os soldados colocaram as cabeças cortadas, como troféus de vitória, em latas de querosene contendo aguardente e cal. E, para alimentar os urubus, deixaram os corpos mutilados e ensangüentados a céu aberto. Mesmo em adiantado estado de decomposição, as cabeças percorreram uma parte do Nordeste do Brasil, sendo exibidas à população. Elas atraiam multidões, onde quer que fossem expostas.

No Instituto de Medicina Legal de Maceió, as cabeças foram medidas, pesadas e examinadas, pois havia a hipótese de que, um indivíduo normal, não se tornava bandido. Em outras palavras, era preciso haver características sui generis, um tipo de tara sertaneja, para que alguém se transformasse em cangaceiro.

Depois de muitos estudos, no entanto, contrariando aquela tese, os pesquisadores concluíram que as cabeças não apresentavam qualquer sinal de degenerescência física, tampouco anomalias ou displasias, e classificaram-nas, simplesmente, como dolicocéfalas. Feito isto, os restos mortais seguiram para o sul do País e, de lá, para Salvador, onde permaneceram seis anos na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal da Bahia. Lá, os pesquisadores, não conformados com o laudo anterior, tornaram a medir, pesar, estudar as cabeças. Isto representou, apenas, mais uma das tentativas inúteis para se descobrir uma patologia preexistente. Depois dessa romaria, aqueles trunfos de guerra ficaram expostos, por mais de 30 anos, no Museu Nina Rodrigues, em Salvador.

As famílias dos cangaceiros lutaram junto à Justiça, durante muito tempo, visando proporcionar um enterro digno aos seus parentes. Isto só veio a ocorrer, porém, depois do Projeto de Lei nº 2.867, de 24 de maio de 1965, que teve sua origem nos meios universitários de Brasília (em particular, nas conferências do poeta Euclides Formiga), e que foi reforçado pelas pressões da população. Neste sentido, após longos anos de exposições, de estudos e protestos, no dia 6 de fevereiro de 1969, as cabeças de Maria Bonita e Lampião foram sepultadas no cemitério da Quinta dos Lázaros, em Salvador.

Em se tratando da memória do cangaço, do banditismo, da cultura violenta (indiferença e insensibilidade perante o sangue e a morte), entre outros temas, Maria Bonita tem sido pesquisada por acadêmicos, e destacada através da literatura, do cinema, da fotografia, das artes. Os trovadores e poetas populares nordestinos, ao longo dos anos, compuseram muitos versos (inclusive cantados) utilizando o seu nome. Um deles foi o seguinte:

Acorda, acorda Maria Bonita, 
Acorda, vem fazer o café, 
Que o dia já vem raiando, 
E a polícia já está de pé. 

Maria Bonita e Lampião possuem familiares em Aracaju (SE). Expedita, a única filha do casal, casou-se com Manuel Messias Neto, dando quatro netos – Djair, Gleuse, Isa e Cristina – à mítica rainha do cangaço.

Fonte: http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16&pageCode=309&textCode=6334&date=currentDate

COMO CITAR ESTE TEXTO: 
Fonte: VAINSENCHER, Semira Adler. Maria Bonita. Pesquisa Escolar On-Line, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://www.fundaj.gov.br>. Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009